Projeto Editorial

 BERGGASSE 19 - Revista de Psicanálise da SBPRP

 
Projeto Editorial (2026) - O que ainda nos procura: quando o sonhar não se faz presente”

 

Desde seus primórdios, a psicanálise conferiu ao sonho um lugar central na compreensão da vida psíquica. Ao longo de sua história, o sonhar foi progressivamente pensado não apenas como via de acesso ao inconsciente, mas como função implicada na transformação da experiência emocional e na constituição do pensamento.

Na clínica contemporânea, essa função tem sido interrogada quanto a seus limites. Não porque o sonho tenha perdido seu valor clínico ou teórico, mas porque a experiência analítica nos confronta com situações em que o sonhar encontra entraves, se fragiliza ou não se sustenta como movimento transformador. Em um contexto marcado pela circulação acelerada de imagens, narrativas e sentidos já constituídos, a experiência psíquica parece, por vezes, prescindir do trabalho de elaboração e imaginação próprias. Que destinos o sonhar assume nessas configurações? Que efeitos geram na clínica?

É nesse terreno que a proposta da VII Bienal de Psicanálise e Cultura da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, intitulada “Da selva escura ao paraíso: sonhos em trânsito”, tem produzido ressonâncias particulares. Ao recorrer à travessia proposta por Dante Alighieri em A divina comédia (Inferno, Purgatório e Paraíso), a Bienal convida a pensar as vicissitudes do sonhar na contemporaneidade, seus percursos, turbulências e possíveis transformações. Esse trajeto, que atravessa regiões de perda, suspensão e eventual abertura, oferece um horizonte fértil para interrogar, a partir da clínica, os momentos em que o sonhar encontra seus limites.

A partir desse diálogo, interrogações se delinearam no campo clínico: e quando esse trânsito não se faz presente? E quando o sonhar não se organiza como movimento, mas se apresenta sob a forma de suspensão ou entrave?

É nesse ponto que a imagem do Inferno, evocada pela Bienal, pode ser tomada como uma metáfora possível para pensar essas experiências, como um tempo sem passagem imediata, no qual a transformação não se anuncia e a repetição pode prevalecer. Não como destino ou condenação, mas como figura que ajuda a circunscrever estados psíquicos em que a função do sonhar encontra seus limites.

Em tempos marcados por suspensão e incerteza, o projeto editorial da Berggasse 19 para o ano de 2026 se oferece como espaço de reflexão compartilhada, atentando aos ritmos do trabalho clínico e às experiências ainda inominadas nos encontros entre analista e analisando. O que há aquém das palavras, dos atos ou das representações? De quais formas ainda incipientes o sonhar pode, pouco a pouco, vir a se constituir?

Em nosso trabalho, conseguimos apreender zonas do psiquismo marcadas por falhas de inscrição, interrupções da figurabilidade ou colapsos do trabalho simbólico? Alcançamos o “soterrado” ou o “nunca acontecido/nascido”? Nessas regiões, como se apresenta o sofrimento? Como vazios? Indiferença? Excessos? Excessos de eficiência? Sensação de inexistência? Conseguimos sustentar a ideia de uma simbolização progressiva?

Enfim, nas décadas de existência de nossa disciplina, a psicanálise pôde elucidar os rastros de luz e de escuridão do psiquismo humano que nos chegaram. Nosso “horizonte cosmológico” amplia-se continuamente.

Perguntamo-nos: e o que mais? E regiões cuja luz ainda não teve tempo de nos alcançar, ou rastros etéreos de escuridão?

Convidamos a todos os colegas a este exercício de reflexão implicado diretamente na técnica psicanalítica.

Conselho Editorial da Berggasse 19

Editora:
Sandra Nunes Caseiro


Editoras associadas:
Cristiane Reberte de Marque
Patrícia Sabbag Farah Peruchi
Renata Sarti